20 anos sem João Batista, mártir da luta pela reforma agrária

No próximo dia 6 de dezembro completam-se 20 anos do assassinato de João Carlos Batista. Ele foi assassinado na frente de seus filhos e da esposa ao chegar em sua residência, no centro de Belém, capital paraense, logo após fazer seu último discurso na Assembléia Legislativa Paraense, onde exercia o mandato de deputado estadual constituinte. 

Na tarde desse dia, há 20 anos, Batista, mais uma vez denunciou da Assembléia Legislativa paraense que havia sido ameaçado de morte. Denunciou dois oficiais da PM paraense que, publicamente falaram que ele merecia bala, durante um ato público na cidade de Paragominas, interior do Estado. Nessa tarde discutia-se a elaboração do Regimento Interno da Assembléia Constituinte do Estado. Alguns colegas deputados, Mario Chermont e Mariuadir Santos, no lugar de tomarem as providências necessárias como presidente e secretário, respectivamente, da Casa Legislativa, fizeram galhofa da fala do parlamentar e advogado ligado às lutas do povo. Algumas horas depois ocorria o assassinato. 

Batista, como era conhecido, nasceu em Votuporanga, interior de São Paulo, e, aos 13 anos, em 1965, transferiu-se com a família para a cidade de Paragominas (PA). Influenciados pela propaganda do governo militar foram para a região amazônica em busca de terras para trabalhar. Camponeses pobres ao chegarem no Pará encontraram muitas dificuldades. Ali presenciaram todas as formas de violência praticada pelos poderosos, que formavam grandes latifúndios, contra os mais pobres que também acreditavam que ali poderiam conquistar uma vida melhor. O que predominava era a impunidade de latifundiários que perseguiam as populações nativas e os colonos que chegavam em busca de terras. A família de João Batista permaneceu em Paragominas até 1975, quando se transferiram para a capital, Belém. O filho mais velho tinha 21 anos, quando retomou os seus estudos.

Após concluir o supletivo ingressou no curso de Direito. Passou a participar do movimento estudantil. Dirigiu a primeira greve estudantil no estado, após 68, quando os estudantes do antigo CESEP pararam, em 1978, as atividades em luta contra as mensalidades abusivas. Integrou a Comissão Nacional pró-UNE, que organizou o Congresso de Reconstrução da entidade, em Salvador (BA), em 1979. 


Formado passou inicialmente a advogar para trabalhadores urbanos. Vinculou-se a vários sindicatos, lutando contra a pelegada e reorganizando as lutas dessas categorias. Logo em seguida voltou-se inteiramente para a luta componesa, orientando posseiros e colonos nas lutas contra os latifundiários e organizando trabalhadores rurais sem terra em ocupações nos municípios de Paragominas, São Domingos do Capim, Irituia, Dom Elizeu, Rondo do Pará, Viseu, Ourém e em outras regiões do Estado. Sua inteligência, dedidicação pessoal, financeira e física foi totalmente destinada a luta pela Reforma Agrária. Devido sua atuação sofreu três atentados mortais. No primeiro, seu pai, Nestor Antônio Batista, recebeu uma carga de chumbo de uma cartucheira calibre 20; no segundo, ficou três dias na UTI, entre a vida e a morte e, no terceiro, após um intenso tiroteio, no meio de uma manifestação com mais de 5 mil trabalhadores presentes, celebrando o primeiro de maio de 1987, em Paragominas, ficaram vários feridos e um pistoleiro linchado. Tentaram matar o advogado no meio da multidão, mas o povo não recuou e fez justiça na hora e com as próprias mãos. Sempre os meios de comunicação no Pará manipulavam a informação, passando a imagem que aqueles que eram as agredidos por balas de pistoleiros e policiais é que eram os violentos. Depois de seu assassinato sua memória foi colocada no ostracismo. Apenas manifestações isoladas recordam a mémoria desse mártir da luta do povo brasileiro.

A atuação política de João Batista durou pouco mais de 10 anos. Nesse curto período perdeu muitos companheiros: Mauro Carneiro, Chico Balela, Gabriel Pimenta, Salvador Alves dos Santos, Reginaldo Alves, José Marcião e Ariston. Todos covardemente assassinados por pistoleiros a mando de latifundiários. 

Com o seu assassinato assumiu a Secretaria de Segurança Pública do Estado, Mario Malato. Delegado do DEOPS/PA, este policial comandava a perseguição a posseiros, colonos e sem terras, atuando de forma parcial e violenta apoiando os latifundiários e em companhia de pistoleiros. João Batista o chamava de “cão de guarda” de latifundiários e pistoleiros. Após a morte de Batista foram presos dois pistoleiros, sendo um degolado na prisão e o outro condenado a cumprir pena de 30 anos em regime fechado. Nenhum mandante foi citado, apesar do envolvimento e denúncias de muitos nomes de figuras importantes no estado estarem envolvidas. Como sempre os poderosos mantiveram-se unidos e preservaram-se, uns defendendo os outros.

A luta pela terra tem sido regada a muito sangue ao longo da história brasileira. É preciso resgatar a esperança na construção de uma sociedade, onde todos tenham assegurado as possibilidades e oportunidades de viver com dignidade. E a terra é a mãe da vida, assegurar a sua democratização, a produção de alimentos e uma justa distribuição são o caminho para uma vida melhor. Esse foi o sonho de muitos que tombaram: João Batista, Chico Mendes, Irmã Doroty, Canuto, Expedito, Quintino e tantos que foram às últimas conseqüências na defesa dos direitos do povo pobre.

Resgatar a memória de João Carlos Batista e daqueles que defenderam justiça social é apontar para referencias que sinalizem a importância da luta, da organização dos trabalhadores e da necessidade de se conquistar a reforma agrária para a construção de um mundo mais justo e fraterno. Esse é o caminho para a construção do socialismo.

PS. Mais informações no livro João Batista, mártir da luta pela reforma agrária, de Pedro César Batista. 2008. Expressão Popular.
Informações: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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